A busca de conforto do homem

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Para o homem que está numa prisão, a liberdade só pode consistir num voo da imaginação. Vossa busca da realidade é somente uma fuga à atualidade. Não busqueis em vão o que é a verdade, porém descobri os empecilhos que impedem a mente de percebê-la.
O homem, na sua busca de conforto e segurança separou a vida em duas divisões: a material e a espi­ritual. A material — o mundo economico e social — acha-se integralmente baseada no espírito de aquisição, que desenvolveu as distinções de classe, isto é, cada um, na busca individual da sua própria segurança e do seu próprio conforto, criou um sistema econômico e social de cruel exploração. Os meios de adquirir riqueza — máquina posta nas mãos de uns poucos — conduziu a um imenso sofrimento, e para sustentar esse interesse rendoso, organizaram-se partidos políticos separatistas, os quais desprezam integralmente o homem, servindo-se dele, apenas, para aumentar seu poder e importância. E o indivíduo está encarcerado nesta complicada tra dição de falsos valores, que ele próprio construiu, persistentemente, através dos séculos.


No mundo das coisas espirituais há também espí rito de aquisição, embora sob forma diferente. Na vida espiritual a busca da segurança expressa-se pelo desejo de imortalidade. Existe em cada um o desejo de ser permanente e eterno. É isto que todas as religiões pro metem, a imortalidade no além. Assim as religiões tor naram-se, por todo o mundo, receptáculos de interesses pecuniários e de crenças organizadas e fechadas. No fim de tudo os vossos ideais apenas são meios de fugir da atualidade. As religiões, com suas crenças, dogmas e credos, tornaram-se barreiras formidáveis entre os seres humanos, separando e atirando o homem contra o homem, limitando-os e destruindo-lhes a inteligência.

Cada um de nós procura a imortalidade e a segu rança num outro mundo, em virtude disso as religiões, com todas as suas explorações, domínios e temores tornam-se uma necessidade. E aqui, neste mundo, pro curamos uma segurança de espécie diferente, por isso criamos costumes, um cruel sistema de competição e de guerras, de distinções de classe e tudo o que se lhe segue.

Vós, como indivíduos, haveis criado esta angústia das distinções e este sofrimento. Vós, como indivíduos, é que tendes de alterar este estado de coisas. Portanto o que há de trazer ao mundo uma condição feliz e inteligente é o vosso próprio despertar.

Eu realizei aquilo que, para mim, é a suprema feli cidade — não a oriunda do prazer, mas a que promana dessa quietude interior que é a segurança da tranqui lidade, a realização da inteireza. Uma vez que o homem realize isso vem-lhe a tranquilidade, não da estagnação, porém da criação, a do ser eterno. Para mim a reali zação desta verdade é a finalidade do homem. É somen te por meio do esforço individual que a verdade pode ser realizada, não por meio de associações de qualquer espécie que sejam.

Não pode haver felicidade humana enquanto existir exploração. Na minha opinião a exploração manifes ta-se quando os indivíduos buscam ter mais do que as suas necessidades essenciais exigem.

Como conheceis pouco a vida que vos cerca que reis escapar e aspirais alguma coisa no futuro, agra­dável, bela, maravilhosa. Mas o que importa é o que sois agora. O que criais no momento presente é que tem valor. Está no vosso poder atingir a libertação e a felicidade e ninguém o pode fazer por vós.

Não busqueis a felicidade que desejais nem no futuro, nem no passado, mas no agora. De que serve ser feliz daqui a dez anos, se agora estais solitários, se cada instante cria lágrimas, sofrimento e dor?

A Vida e vós sois uno. Somente o ignorante vê a separação.

Tendo certeza não necessitareis de fé, nem de crença. Na verdade não há mistérios.

O homem perfeito não é um exotismo da natureza mas a sua floração.

Não busqueis comodidade ou consolo, buscai com preensão. Buscar comodidade é escravizar a vida, buscar compreensão é dar-lhe liberdade.

O homem que diz: "dizei-me como hei de agir", não deseja pensar com profundeza acerca do assunto, deseja apenas que lhe digam o que fazer, e isto cria os perniciosos sistemas da autoridade e do setarismo.

O círculo vicioso do sofrimento e da escápula continuará até que comeceis a verificar a futilidade da fuga.

Não podeis conhecer o gosto do sal enquanto não o provardes vós mesmos. Entretanto desperdiçamos tempo a buscar uma descrição da verdade. Digo-vos que não a posso descrever, não posso exprimir em palavras essa vivente realidade.

Krishnamurti

Krishnamurti – Francisco Ayres
Editora SOMA - São Paulo - 1984
Páginas 87 à 90

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